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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O cuidado com a celebração Eucarística

Seja fiel na criatividade observando os conceitos que dinamizam a liturgia!
POR PE. CARLOS GUSTAVO HAAS


Falar de criatividade é uma tarefa complexa e difícil. Afinal, até o Vaticano II, a liturgia viveu uma fase de 400 anos de “imobilismo”, onde nada podia mudar. E mudar, também não é fácil.
Apresento aqui alguns pontos que poderão ser aprofundados numa reflexão individual ou nas equipes de liturgia.


 1. “Ser criativos” em uma celebração

Pe Mauro SCE da CNSE RS

Quando queremos “ser criativos” em uma celebração, nossa primeira preocupação deve ser a participação mais plena, ativa e frutuosa da assembleia.  O grande motivo para “mudar” palavras, gestos, sinais e ritos não é o gosto da equipe de liturgia ou o que vimos em um show ou mesmo em uma missa transmitida pela TV, mas sim, a maior participação no culto a Deus, integrado em nossa vida atual.
Cito as palavras de Bento XVI na Exortação “Sacramentum Caritatis”, n. 38:  “O primeiro modo de favorecer a participação do povo de  Deus no rito sagrado é a condigna celebração do mesmo; a arte da celebração é a melhor condição para a participação ativa. A arte da celebração resulta da fiel obediência às normas litúrgicas na sua integridade, pois é precisamente esse modo de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes, chamados a viver a celebração enquanto povo de Deus, ‘sacerdócio real , nação santa’” (cf. 1Pd 2,4-5.9).

2. Ser “criativo” é ser fiel
Temos então um segundo elemento: ser “criativo” é ser fiel.  Ser criativo não significa  “inventar”.         Não podemos confundir “criatividade” com “criativismo” – fazer algo diferente apenas por fazer diferente.  Gosto do que escreveu Bento XVI: “A liturgia, por sua natureza, possui uma tal variedade de níveis de comunicação que lhe permitem cativar o ser humano na sua totalidade. A simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais, situados na ordem e nos momentos previstos, comunicam e cativam mais do que o artificialismo de adições inoportunas” (Sacramentum Caritatis, 40).


Paróquia Sagrado Coração de Jesus - POA - RS

 O povo logo percebe quando propomos algo que vem apenas de um gosto ou ideia pessoal, ou quando somos criativos a partir do rito, do momento celebrativo, do mistério que estamos vivenciando.
No Documento 43 da CNBB, Animação da Vida Litúrgica no Brasil, n. 170, lemos: “Por criatividade não se deve entender tirar como que do nada, expressões litúrgicas inéditas. Pelo contrário, a verdadeira criatividade é orgânica: está ligada aos ritos precedentes como o celebrante de hoje aos do passado”.

 4 cuidados que devemos ter
1. O “ativismo”: fazer na celebração um “desfile” de vários elementos, símbolos, gestos, ritos, sem silêncio, com movimentos em excesso.  É a tentação de querer fazer tudo em uma única celebração.
2. O “intelectualismo”: é quando queremos explicar tudo que acontece em uma celebração.  A celebração torna-se “cerebração”, poluída com comentários e mais comentários. 
3 .O “espontaneismo”: deixar tudo para última hora, improvisar os ritos e gestos, deixando que aconteça apenas com a boa-vontade  dos participantes. A verdadeira espontaneidade não é inventar um gesto.  Os gestos mais expressivos da nossa existência são aqueles que, desde a nossa infância, nós enchemos de experiência humana, como abraçar a mãe, juntar as mãos, todos os gestos da oração que, para nós foram o meio próprio de nos encontrarmos com Deus; é aí que nós somos mais espontâneos.  A verdadeira espontaneidade consiste em encher de novidade um gesto de sempre, pois os gestos e as palavras das pessoas não podem ser inventados até ao infinito.


4. O “fixismo”: repetir sempre a mesma coisa, caindo no formalismo e na rotina.  Acaba cansando a assembleia, pois se torna algo sem o espírito próprio para o qual foi criado.
 Enfim, para sermos criativos na liturgia, precisamos levar a sério tudo o que fazemos. A simples modificação de um gesto, sinal, atitude, acarreta uma profunda alteração do significado de muitas ações litúrgicas.
Zelar pela liturgia não significa “engessá-la”.  “Liturgia é uma ação ritual, cuja característica é a repetição e a fidelidade à Tradição: “Façam isto (e não outra coisa!) para celebrar a minha memória (…)”. Liturgia não se inventa, se vive. O jogador de futebol não muda as regras do jogo; a cantora não inventa uma nova música, ignorando ou modificando a partitura. Ambos exercem sua criatividade ao entrar de corpo e alma no jogo de futebol ou na música; e dessa entrega nasce uma interpretação sempre nova, atual, surpreendente, tocante. É desse tipo de zelo que a liturgia precisa: unindo conhecimento e respeito pelas regras com entrega total ao ‘jogo’, levando a uma vivência profunda” (Ione Buyst, Liturgia em Mutirão, Edições CNBB, pág. 222).

Pe. Carlos Gustavo Haas é Presbítero da Arquidiocese de Porto Alegre/RS, Assessor da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A EUCARISTIA E VIDA EUCARÍSTICA



É quase certo que a maioria que vive o estado de viuvez e também as pessoas sós, têm, como prática habitual, participar diariamente da Celebração da Eucaristia. Outras(os), porém, por motivos vários, participam apenas da chamada Missa de Preceito, ou seja, a Dominical. Importante, tanto no primeiro caso como no segundo, é que tenhamos plena consciência que existem laços que ligam a Eucaristia que participamos  à vida que levamos.
A palavra Eucaristia significa, como sabemos, “ação de graças”. Logo, participar da Eucaristia e viver eucaristicamente, expressa nossa gratidão a esse favor ou dádiva preciosa de Deus. Nossa vida, com toda a sua beleza e preciosidade, está intimamente associada à sua fragilidade e mortalidade. Não é por outra razão que a Missa começa com uma súplica de perdão a Deus.
A Palavra de Deus que ouvimos na Eucaristia faz com que sejamos parte da grande história da nossa salvação. A qualidade sacramental dessa palavra torna Deus presente não só como uma presença pessoal e íntima, mas também como uma presença que nos oferece um lugar no seu Reino. Nossas vidas de simples viúvas(os) e de pessoas sós, são, na verdade, vidas sagradas e que desempenham um papel fundamental na realização das promessas de Deus.
A presença de Jesus é reconfortante. Ele é o Bom Pastor que conhece intimamente e ama a cada uma(um) de nós. Por isso não se nega a ficar do nosso lado, como aconteceu com os discípulos de Emaús, entrando na casa deles e ceando com eles. E estando com eles à mesa, tomou o pão, rezou, partiu-o e lhes deu. Esse pão da vida (alimento da vida) é a essência do nosso viver.
Importante é recordar para nós, viúvas/os e pessoas sós, que a Eucaristia é um gesto humano simples, porém, o mais divino que possa ser imaginado. É a verdade de Jesus. Tão humano e, no entanto, tão divino. Tão familiar, todavia tão misterioso. Tão próximo, contudo tão revelador. 
Jesus é Deus para nós, ou seja, Deus conosco ou Deus dentro de nós. Na Eucaristia Jesus é tudo. O pão não é simplesmente um sinal do seu desejo em transformar-se no nosso alimento. O vinho não é meramente um sinal da sua vontade de ser nossa bebida. O pão e o vinho transformam-se em seu corpo e sangue durante a oferenda. Deus se faz totalmente presente em nós em Jesus. É alimento para nós agora, no momento da celebração eucarística, exatamente onde estamos reunidos ao redor da mesa. Deus se dá a nós. É o mistério da Encarnação, que acontece na “comunhão”.
A palavra “comunhão” expressa toda a verdade que, em e através de Jesus Cristo, Deus deseja não só instruir-nos e ensinar-nos, como também tornar-se um conosco. Deus deseja estar plenamente unido a nós, viúvas/os e pessoas sós, para que possamos estar unidas/os de maneira duradoura a Ele.
A Eucaristia é, como se vê, fonte e força criadora de comunhão, porque nos une com o próprio Cristo. Para sermos fieis a essa união, necessitamos de unidade e caridade. Sem amor, sem caridade, estaremos distantes dos desígnios de Deus. Vivemos tempos repletos de violências, guerras, terrorismo, injustiças sociais e tantas coisas mais. Deus bem que poderia nos interrogar face a essa falta de amor: “criei vocês, dei-lhes todo o meu amor, onde estão vocês, onde está sua resposta, onde está a sua caridade?”.
Deus não quer outra coisa que não seja “comunhão” e toda a história do relacionamento de Deus conosco é uma história de uma comunhão mais profunda, na qual Ele busca caminhos sempre novos para comungar intimamente conosco. 

Fonte: Manual dos coordenadores